Às margens do Capibaribe, a palavra mulher

Cultura

Às margens do Capibaribe nasce também um livro.
Não apenas um título, mas um gesto: As Margens do Capibaribe, de Elizabete Sanches e José Eduardo Martins, é um território de escuta e memória.

Uma obra acadêmica singular que se abre como poema, dedicada à escrita de três mulheres que fizeram do verbo um ato de coragem no seio do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco — o MEIPE.

Independentes, foto 1985

O Capibaribe não corre sozinho.
Carrega vozes.
Carrega mulheres.
Carrega livros que não pedem licença à margem porque nascem dela.

As Margens do Capibaribe  é uma travessia. Um gesto de escuta atenta às águas da poesia feminina que brotou no Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco — o MEIPE — quando escrever era também um ato de risco, e publicar, um gesto de insurgência.

Elizabete Sanches e Eduardo Martins

Ali, três vozes se erguem como pedras de fundação: Cida Pedrosa, Dione Barreto e Fátima Ferreira. Três mulheres que escreveram com o corpo inteiro, sem pedir desculpas, sem pedir lugar. Mulheres que fizeram da poesia um espaço de consciência, de confronto e de desejo.

Cida Pedrosa

Cida Pedrosa vem do sertão de Bodocó e chega ao Recife ainda menina, trazendo na mala o sol, a secura e a resistência. Sua poesia aprende cedo que a palavra pode ser faca e abrigo. Décadas depois, consagrada com o Prêmio Jabuti 2022, mais de uma dezena de livros e obtendo prêmios dos mais importantes, como o Prêmio Literário Guerra Junqueiro – Lusofonia,  e finalista do Jabuti-2023 com Araras Vermelhas, um poema épico de quase 150 páginas sobre a guerrilha de Araguaia, Cida permanece fiel à origem: escreve como quem caminha pelas ruas, pelos tribunais, pelas lutas sociais. Sua voz atravessa a literatura brasileira sem abandonar o chão — porque é dele que nasce sua força.

Dione Barreto

Dione Barreto nasce na serra da Borborema. Sua poesia desconfiada dos mitos, consciente das armadilhas da origem. Psicóloga, gestora cultural, primeira mulher a presidir a UBE pernambucana. Na adolescência publicou Círculo Vazio (1973). Fez teatro amador com o grupo Calcila Becker, em Campina Grande e foi premiada com a peça  de Oscar VonPful, no festival Arcozelo, no Rio de Janeiro. Dione escreve para desmontar a narrativa que tentou aprisionar o feminino. Em seus versos, a mulher fala de si, da história e do erro fundador que a expulsou do centro. Ela reescreve o mito com ironia e ferida aberta.

Fátima Ferreira

Fátima Ferreira nasce em Olinda, onde as ladeiras ensinam o corpo a resistir à gravidade. Na década de 1980 formou parte do alternativo  “Agora Nós” e das Edições Bandavuo . Em 1981 lançou dois de seus livros, Decomposição, e Dedetização – Dia de Festa.  Formou o núcleo embrionário do MEIPE, junto a Cida Pedrosa e Héctor Pellizzi com quem publicou os alternativos Americanto e O Cântaro. Sua poesia vem do mar, da terra, do quintal, da urgência. Fátima escreve como quem abre portas e gavetas do medo. Em Dedetização – Dia de Festa, anuncia o fim dos fantasmas e a libertação da palavra feminina. Sua escrita é gesto ritual: limpa, expõe, revela.

Independentes, foto de 2014

No MEIPE, essas mulheres não eram exceção — eram presença. Havia ali uma recusa consciente ao silêncio imposto, uma rebeldia estética, uma urgência política. A poesia não queria o conforto da academia: queria a rua, o bar, o panfleto, o corpo coletivo. Era poema-manifesto, palavra viva, intervenção.

Elizabete Sanches

Elizabete Sanches, doutora e mestra em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-graduada em Português: Língua e Literatura pela Uni Sant’Anna. Graduada em Filosofia e Letras pela Universidade de São Paulo (USP),  percebe ainda no mestrado: o número expressivo de mulheres, a qualidade da escrita, a juventude audaciosa que já ocupava o espaço público com versos. Sua tese doutoral nasce desse espanto fértil e se transforma em revisão necessária. Quatro décadas depois, a academia é convocada a olhar novamente — com menos preconceito, com mais escuta.

Eduardo Martins

José Eduardo Martins, quem foi professor titular da Universidade Federal de Rondônia, membro da faculdade do PPGEL de estudos literários da UNEMAT e líder do grupo de investigação em poesia contemporânea de mulheres das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, poeta e um dos semeadores do MEIPE, compreendia o valor do gesto coletivo. Como lembra César Leal, ecoando Ortega y Gasset, a criação muitas vezes nasce do grupo. O movimento não era soma, era multiplicação. E foi nesse terreno compartilhado que a autoria feminina encontrou raízes profundas.

A poesia dessas mulheres não pedia autorização.
Ela existia.

Como escreve Fátima Ferreira:
Hoje não haverá fantasmas nem assombrações.
E não houve.
Porque quando a palavra feminina se fortalece, as portas se abrem, as gavetas do medo se esvaziam, e o poema volta a ser aquilo que sempre foi: uma forma de vida.

As Margens do Capibaribe devolve essas vozes ao centro do rio. Não como memória estática, mas como corrente viva. Porque essa poesia não passou. Ela segue correndo — indomável, lúcida, necessária.

Héctor Pellizzi

Recife, fevereiro 2026

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