I Congresso Brasileiro de Literatura de Cordel

Cultura

Reunião Pública “Políticas Públicas para a Literatura de Cordel”

Bom dia a todas, todos e todes.

Cida Pedrosa: «…defender o cordel é defender a democratização da cultura…» (Foto Sennor Ramos)

Quero saudar com muito carinho o povo do cordel, repentistas, pesquisadores, mestres e mestras da cultura popular, produtoras e produtores culturais, educadores, estudantes, representantes dos movimentos culturais e todas as pessoas que constroem, com tanta beleza e resistência, a literatura de cordel no nosso país.

É uma grande alegria abrir esta Reunião Pública sobre Políticas Públicas para a Literatura de Cordel, como parte da programação do I Congresso Brasileiro de Literatura de Cordel, aqui no Recife, cidade que respira poesia, invenção popular, oralidade, feira, rua, canto, memória e luta.

Falar de cordel é falar de povo.

É falar de uma forma de expressão profundamente brasileira, nordestina, popular, crítica, educativa e encantadora.

O cordel é arte, é comunicação, é denúncia, é humor, é filosofia, é crônica do cotidiano, é registro histórico, é formação política, é pedagogia popular.

O cordel traduz o mundo com a inteligência de quem vive o mundo de perto.

E é justamente por isso que nós estamos aqui hoje: porque a literatura de cordel não pode seguir sendo tratada apenas como tradição a ser celebrada em datas comemorativas. O cordel precisa ser reconhecido como linguagem viva, como rede produtiva, como patrimônio cultural em movimento, e, portanto, como campo que exige política pública estruturada, contínua e específica.

Essa pauta não nasce de gabinete fechado.

Ela nasce da escuta.

Ela nasce da construção coletiva do nosso mandato com cordelistas, artistas populares e agentes da cultura que vêm há algum tempo apontando caminhos concretos para fortalecer essa expressão tão fundamental da nossa identidade.

E eu quero afirmar aqui, com toda convicção: há urgência.

Urgência porque muitos fazedores e fazedoras do cordel seguem produzindo sem as condições necessárias de circulação, edição, difusão e remuneração digna.

Urgência porque a literatura de cordel ainda ocupa, muitas vezes, um lugar secundário nas políticas culturais institucionais.

Urgência porque nossas crianças e jovens precisam ter acesso a essa riqueza dentro das escolas.

Urgência porque preservar o cordel não é apenas guardar o passado. É garantir futuro para quem escreve, canta, imprime, declama, pesquisa e mantém essa arte viva.

Nosso mandato assumiu compromissos muito claros com essa agenda.

Defendemos, junto à Secretaria de Educação, a criação de um programa de formação e difusão da literatura de cordel, que inclua também a realização de oficinas de cordel e repente para estudantes da rede municipal de ensino. Porque o cordel precisa estar no centro dos processos educativos, não como enfeite, alusão ao chamado folclore, mas como ferramenta de leitura de mundo, de criação literária e de valorização da cultura popular.

Também propomos a realização de um concurso literário específico para o gênero cordel, estimulando novas produções, revelando novos talentos e reconhecendo quem já vem sustentando essa tradição com tanto compromisso.

É fundamental, ainda, defender a criação de linha de investimento em edição e produção de folhetos de cordel, porque não existe política séria para o setor sem recurso, sem fomento e sem mecanismos adequados às especificidades da linguagem.

Da mesma forma, seguimos na luta pela presença de cordelistas na programação dos ciclos festivos da cidade do Recife. O cordel precisa estar nas festas, nos palcos, nos mercados, nas ruas, nos equipamentos culturais, nos grandes eventos. Não como presença acessória, mas como parte estruturante da cultura da nossa cidade.

Nos teatros municipais, queremos requerer a inclusão de espaços permanentes nas grades, com ênfase para o Centro de Formação Hermilo-Apolo, para a realização de mesas de glosa e festivais de repentistas. Porque o repente, a viola, a oralidade improvisada e a poesia popular também precisam de institucionalidade, visibilidade e continuidade.

Outra frente indispensável é a criação de linhas específicas nos editais públicos para a produção e circulação da cultura do cordel e do repente. Não basta abrir editais genéricos e esperar que todos os segmentos disputem em condições iguais. A desigualdade histórica exige ação afirmativa também na política cultural.

Defendemos igualmente a construção de uma política de digitalização e acesso aos acervos de cordel, para preservar a memória, democratizar o acesso e impedir que parte valiosa da nossa produção se perca com o tempo. A tecnologia precisa servir também à cultura popular, à pesquisa, à formação e à difusão.

Nosso mandato também propõe a criação do Dia Municipal do Poeta Popular, como forma de reconhecimento simbólico e político da importância desses artistas para a vida cultural do Recife.

Queremos o retorno do Circuito dos Mercados, com saraus poéticos e musicais que fortaleçam o trabalho de escritores, poetas declamadores, cantores, músicos, repentistas e contadores de causos. Os mercados públicos, assim como as ruas e praças, podem e devem ser espaços vivos de fruição cultural popular.

Propomos ainda a realização de um Festival de Cantadores de Viola e Mesas de Glosa, valorizando uma tradição oral poderosa que atravessa gerações e constitui parte essencial da nossa formação estética e cultural.

Queremos fortalecer a Praça do Sebo, em Recife, com ações voltadas ao cordel, reconhecendo aquele espaço como território simbólico da literatura popular, da convivência cultural e da circulação de saberes.

E, de forma muito estratégica, queremos construir ambientes para que o Cordel seja protagonista, ambientes públicos para planejar ações de fomento, circulação, preservação e fruição da literatura de cordel. Porque política pública se faz com escuta, com participação social e com planejamento.

Camaradas aqui presentes, defender o cordel é defender a democratização da cultura.

É defender a memória e também a invenção.

É defender a palavra popular como direito.

É afirmar que a cidade precisa reconhecer, apoiar e projetar aqueles e aquelas que fazem cultura a partir do território, da oralidade, da experiência e da sabedoria do povo.

O Recife tem uma responsabilidade histórica com essa pauta.

Não podemos aceitar que uma linguagem tão potente siga à margem do orçamento, da formação, dos editais, das escolas e dos equipamentos culturais.

Essa reunião pública, portanto, não é apenas um momento de celebração.

É um chamado à formulação concreta.

É um espaço de incidência política.

É um passo importante para que possamos sair daqui com propostas, compromissos e encaminhamentos reais.

Que este encontro nos ajude a transformar reconhecimento em política, admiração em investimento, tradição em futuro.

Contem com o nosso mandato nessa luta.

Um mandato que acredita que cultura popular não é detalhe: é fundamento. Que afirma que poesia também é política pública.

E que acredita que quando o cordel ocupa o centro, quem ganha é o povo, é a educação, é a memória e é a democracia cultural.

Muito obrigada.

 

DISCURSO – VEREADORA CIDA PEDROSA

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