Frente ampla: necessária, complexa e contraditória*

Opinión, Política

Por Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65


A poucos meses da eleição presidencial, a incidência de alianças políticas «caleidoscópicas» — nos dois polos opostos da disputa — ganha força.

Tirante especulações meramente subjetivas, quando não tendenciosas; e a frustração do complexo midiático dominante pelo insucesso de uma pretendida candidatura dita da «terceira via», o centro político conservador, de reconhecida força eleitoral, é alvo de disputa tanto pela ampla frente democrática e progressista reunida em torno do presidente Lula, como pela articulação de extrema direita representada pelo senador Flávio Bolsonaro.

Em editorial recente, o Portal Vermelho avalia que o governo Lula conseguiu estabilizar sua base de esquerda e procura aproveitar as fissuras na oposição para avançar sobre o eleitorado e as segmentos de centro-direita, indispensável para o êxito eleitoral pretendido. (1)

Esse movimento ganha desenhos nítidos nas composições que se formam para a disputa de governos estaduais, frequentemente destoantes do posicionamento nacional.

Tão necessária quanto contraditória

Certa vez, ao ouvir de João Amazonas sua predisposição ao diálogo com Aureliano Chaves, então vice-presidente da ditadura militar já em plena decadência, o inquiri sobre o inusitado que me parecia: «Meu caro, você conhece algum caso na História em que nossas forças avançaram sem dividir as hostes inimigas?», respondeu.

Mas se parece óbvio frequentemente não é compreendido. A estreiteza, o sectarismo e o voluntarismo míope costumam rejeitar alianças políticas diversificadas.

Lenin, a seu tempo, travou intensa batalha contra correntes sectárias no interior do partido e grupos voluntaristas e inconsequentes que na velha Rússia também se batiam contra o czarismo, assim como nos movimentos revolucionários europeus de então.

Em “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, de 1920, (2) ele critica concepções estreitas e imediatistas predominantes no movimento revolucionário europeu. Orientava que para derrotar o inimigo principal faz-se necessário explorar contradições no seu entorno, atrair todas as correntes suscetíveis de uma aliança, mesmo que temporária, e neutralizar as que se desgarram do inimigo mas permanecem arredias.

Ele propunha aos partidos revolucionários o máximo de amplitude e flexibilidade sem contudo perder a identidade própria. No interior da ampla coalização, a relação dialética entre a unidade e a luta – conduta que já defendera em “Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Russa”, em 1905, no curso da luta contra czarismo. (3)

Este tem sido elemento essencial na concepção tática adotada pelo PCdoB, sobretudo a partir de sua 6ª. Conferência Nacional, de 1966.

Limites da correlação de forças

No Brasil, a coalizão de forças do campo popular e democrático liderada pelo PT desde 1989 aprendeu a superar concepções estreitas e sectárias no curso de rica experiência de derrotas e êxitos.

Mas mesmo nos governos Lula 1 e Lula 2, em conjuntura internacional em muitos aspectos favorável, limitações de ordem subjetiva (carência de um projeto nacional claro e bem definido) e objetiva (força real dos segmentos da classe dominante atraídos para a coalizão) determinou limites dos resultados alcançados.

No presente governo Lula 3, em conjuntura internacional e interna desfavoráveis, maiores são esses limites tanto em relação a pontos essenciais da Plataforma da Reconstrução Nacional adotada pela frente eleitoralmente vitoriosa em 2022, quanto às políticas sociais compensatórias (Minha Casa, Minha, Luz Para Todos, Pé de Meia, etc.), que esbarram em obstáculos orçamentários sob pressão do dito mercado financeiro.

Demais, antes e agora, o discurso governamental (salvo breves lampejos circunstanciais) se mantém marcadamente “economicista” e, portanto, insuficiente para esclarecer e elevar a consciência política da sua base social.

Na verdade, a frente ampla tem incorporado (corretamente) segmentos da classe dominante que alguns analistas caracterizam como “grande burguesia interna” (4), que ora assimilam proposições progressistas (governos Lula 1 e Lula 2 e Dilma), ora servem de anteparo – no parlamento e no próprio interior do governo – a passos mais ousados que possam se confrontar com interesses do capital financeiro, do agronegócio exportador e dos monopólios do varejo (atual governo Lula 3).

Em razão disso, mesmo em conjuntura razoavelmente favorável, jamais os governos Lula 1 e Lula 2 ousaram dar passos efetivos no sentido de reformas estruturais.

Ousadia e amplitude

A Resolução Política do XVI Congresso do PCdoB propugna “uma larga frente em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho” como indispensável à reeleição do presidente Lula, “abarcando centro, centro-direita e esquerda, sob o impulso da unidade e mobilização do povo”; “reunir forças para defender a soberania nacional, proteger e ampliar a democracia, promover o desenvolvimento e a defesa da economia brasileira, garantir melhores salários, mais direitos, vida digna ao povo… mesmo sob pesados condicionantes, entre eles o fato de ser um governo de minoria parlamentar, com um Congresso Nacional sob a hegemonia do conservadorismo, com uma numerosa bancada da extrema-direita; o forte poder da oligarquia financeira, que se robusteceu com a nefasta “independência” do Banco Central (BC); o pesado ataque do governo Trump; e a sociedade fraturada, sob influência da política e dos valores da extrema-direita.” (5)

Ou seja, um passo adiante em relação ao atual governo, a despeito da complexa e em muitos aspectos adversa conjuntura mundial e interna.

A chave do êxito implica na elevação do nível de consciência e de organização do povo.

Isto num quadro geral de fragmentação do proletariado e demais camadas assalariadas e de ampliação do trabalho informal; ainda insipiente redesenho de formas de luta e de organização e enfrentamento da chamada “guerra cultural”.

Diante de tamanho desafio, na conclusão do atual governo e na campanha que se avizinha, indispensável é ajustar o discurso para além da costumeira prestação de contas das “entregas” sociais e econômicas imediatas” (6).

Referências

(1)  Direita e extrema direita se dividem, Lula une a esquerda e busca a centro-direita https://vermelho.org.br/editoriais/direita-e-extrema-direita-se-dividem-lula-une-a-esquerda-e-busca-a-centro-direita/

(2)  Lênin: Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo

(3)  Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Russa

(4)  Boito Jr., Armando: Reforma e crise política no Brasil – os conflitos de classe nos governos do PT – Editora Unicamp/Editora Unesp Editora Unicamp/Editora Unesp

(5)  Resolução Política do 16º Congresso do PCdoB https://pcdob.org.br/documentos/resolucao-politica-do-16o-congresso-do-partido-comunista-do-brasil-pcdob/

(6)  Luciano Siqueira: Guerra das tarifas abre chance da esquerda ir além do economicismo governamental. Portal Grabois https://grabois.org.br/2025/07/24/guerra-tarifas-oportunidade-esquerda-alem-economicismo-governo/

*Publicado simultaneamente no Portal Grabois https://grabois.org.br/

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