A maior competição internacional de futebol começará no dia 11 de junho, e o povo realmente não está dando bolas – para usar uma figura de linguagem apropriada. O torcedor tirou o time de campo antes mesmo de a bola começar a rolar nos gramados dos Estados Unidos, do México e do Canadá.

Claro que há motivos para esse clima de indiferença. Ainda que nada entenda sobre futebol, fico imaginando que o torcedor chegou a este ponto depois de sofrer de paixão não correspondida. Paixão pelo futebol, é claro.

E paixão é paixão. Seja nos corações ou nos verdes gramados sintéticos dos campos. É coisa emocional, intensa e eufórica. Que pode acabar, dependendo das irritações. A falta de interesse do torcedor, hoje, é o resultado de decepções e desilusões – como ocorre em qualquer sentimento.

O que está acontecendo é que a paixão pela Seleção Brasileira, a mesma que tem poder de mobilizar multidões, esfriou. A alegria e a festa foram substituídas pela frustração, resultando em apatia. Daí esse clima de tanto faz como tanto fez.

Motivos não faltam: a seleção dentro de campo não corresponde à expectativa. A ganância de jogadores e empresários, que ficam cada vez mais ricos, chegando ao inalcançável, desperta o sentimento de injustiça. E a vaidade delirante de craques que se sentem como estrelas de Hollywood faz com que eles se esqueçam de que estão ali para jogar bola. E não para dar pinta de artista.

Um amigo que entende bastante de futebol, Humberto Seixas, me disse que esse clima de frieza da torcida também tem a ver com o fato de que os jogadores, que antes atuavam nos clubes daqui do Brasil, estão indo para o exterior muito jovens. Não criam laços com a torcida. A seleção é quase toda desconhecida. E analisou também que os jogos da seleção, quando ocorrem, são quase sempre no exterior. Jogos caros.

Tem isso aí e mais coisa: quem esquece da Copa do Mundo de 98, quando Ronaldo Fenômeno teve uma convulsão, na final contra a França? Quem esquece o 8 de julho de 2014, quando a seleção perdeu de 7 a 1 para a Alemanha?

Quem esquece que uns jogadores que estão podres de ricos foram a um restaurante na Copa de 2022 para comer carne coberta de ouro 24 quilates, no Catar? Quem se esquece de que há jogadores que levam até cabeleireiros consigo quando viajam para os jogos da seleção?

Num exercício de fantasia, fico imaginando se o escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, se fosse vivo, ainda escreveria aquela sua frase conhecida, de que quando a seleção entra em campo, é a Pátria de Chuteiras. Ou será que ele daria um jeito de dizer que as chuteiras da Pátria, atualmente, estão penduradas?

 

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: [email protected]; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.