Cada campanha eleitoral tem sua própria fauna. É a estação do ano em que florescem as promessas impossíveis, as lembranças oportunistas, as anedotas recicladas e os discursos que confundem desejos com fatos. Também é a época em que o folclore político atinge seu máximo esplendor.

Como aquele candidato que prometeu construir uma ponte em uma região rural.
— Mas aqui não há rio! — gritou um matuto do fundo da multidão.
— Não importa, faremos o rio! — respondeu o candidato sem ficar vermelho.
A cena provoca um sorriso. No entanto, por trás da piada esconde-se uma realidade muito menos divertida. Boa parte da história política latino-americana foi construída sobre promessas não cumpridas, embustes, enganos, falácias e patranhas.
Hoje, essas velhas mentiras e falsidades apenas mudaram de nome. Foram batizadas com um termo importado do inglês: fake news. O conteúdo, porém, continua sendo o mesmo.
Mas também existem aqueles que exercem a política com um sentido probo, íntegro e incorruptível, que compreendem que a melhor propaganda não é um slogan, mas um resultado; que a melhor promessa é uma obra concluída; que a melhor resposta a um adversário não é um insulto, mas uma estatística para distinguir a boa da má política, distinguir as grandes realizações das ações pobres e lamentáveis.
Porque os dados — quando são verificáveis — têm uma virtude incômoda: destroem as narrativas.
Existe um exemplo no país vizinho, o Brasil, cuja história política transitou do imperador Pedro II e do marechal Deodoro da Fonseca até a chegada de um operário metalúrgico à Presidência da República no início do século XXI.
Luiz Inácio Lula da Silva governou entre 2003 e 2011, em dois mandatos consecutivos, e voltou à Presidência entre 2023 e 2026. Dilma Rousseff, por sua vez, governou entre 2011 e 2016, quando foi destituída por meio de um processo de impeachment, palavra inglesa utilizada para designar o julgamento político que culminou com seu afastamento do cargo.
Lula costuma respaldar sua gestão com estatísticas sobre as ações desenvolvidas durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), em coalizão com setores da burguesia nacional, com movimentos progressistas e, especialmente, com o importante Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Em uma democracia, as estatísticas são muito mais difíceis de contestar do que os discursos.
A educação como política de Estado
Vou me referir apenas à infraestrutura educacional e ao controverso tema do aborto, deixando para outra oportunidade a análise de outros aspectos econômicos, científicos e macroeconômicos.
Em 2002, antes do primeiro governo Lula, existiam 140 unidades da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica. Entre 2003 e 2016, durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, foram criadas e inauguradas 422 novas unidades.
No terceiro governo Lula (2023-2026) foi anunciada a criação de outros 100 campi dos Institutos Federais. Além disso, em março de 2026, o Governo Federal inaugurou simultaneamente 43 institutos federais cujas obras já haviam sido concluídas.
Durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro não existe um dado oficial do Ministério da Educação que atribua à sua administração a criação de novas unidades da Rede Federal. As estatísticas oficiais não registram a criação de novos campi por iniciativa de seu governo.
No ensino superior, durante os governos do PT foram criadas 18 universidades federais, número utilizado pelo Ministério da Educação e amplamente citado em documentos oficiais.
Durante o governo Jair Bolsonaro começaram a funcionar cinco universidades federais, mas todas elas haviam sido concebidas e aprovadas por leis sancionadas anteriormente. Em consequência, sua administração não promoveu a criação legal de novas universidades federais.
Mais uma vez, os números falam por si.
O aborto: entre o discurso e a realidade
Em relação ao aborto, tanto o Partido Liberal (PL) quanto Jair Bolsonaro mantêm uma posição contrária à sua legalização e defendem a proteção da vida desde a concepção. O partido rejeita a ampliação das hipóteses permitidas pela legislação brasileira.
No entanto, é importante distinguir entre a posição política do PL e a legislação vigente. No Brasil, o aborto não é livre. A legislação brasileira autoriza o aborto apenas quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher, quando é consequência de estupro ou em casos de anencefalia fetal, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal.
Até aqui, o discurso político. A realidade é bem mais complexa.
Não existe um dado oficial sobre a quantidade de abortos ilegais realizados durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022), já que, por definição, tratam-se de procedimentos clandestinos que não ficam registrados oficialmente.
Entretanto, diversos estudos estimam que no Brasil ocorrem aproximadamente 500 mil abortos clandestinos por ano. Se essa estimativa for adotada, durante os quatro anos do governo Bolsonaro o total teria girado em torno de 2 milhões de abortos clandestinos. Se for utilizada a estimativa mais elevada, de um milhão por ano, o total alcançaria 4 milhões.
Independentemente das diferenças metodológicas entre as estimativas, o fenômeno evidencia que as declarações de princípios e os desejos expressos pelo poder político colidem com uma realidade social muito mais complexa, que continua impondo desafios às políticas públicas e ao sistema de saúde.
Os números não constituem uma defesa do aborto nem uma condenação daqueles que se opõem a ele. O que demonstram é outra coisa: que uma declaração de princípios, por si só, não modifica uma realidade social profundamente enraizada.
Quando os fatos incomodam
Na política, é legítimo debater ideologias. É legítimo divergir sobre o papel do Estado, sobre o mercado, sobre a carga tributária, sobre a segurança ou sobre a política externa.
O que não deveria ser legítimo é substituir os fatos por narrativas.
As opiniões são livres. Os dados, por sua vez, exigem ser verificados.
E, quando os dados são sólidos, costumam produzir um efeito devastador sobre a propaganda.
É por isso que incomodam.
Porque, no fim das contas, as palavras podem emocionar, os discursos podem entusiasmar e as palavras de ordem podem mobilizar multidões. Mas os dados, cedo ou tarde, acabam ditando a sentença.
E, quase sempre, os dados matam narrativas.
Héctor Pellizzi
Agosto de 2026
Este artigo, do original em castelhano, foi publicado na Argentina, no México e na Espanha pelo jornal La Voz de los Barrios.
















































































