Caesar Sobreira: do Movimento Independente ao top ten acadêmico

Cultura

A origem do Movimento de Escritores Independentes está intimamente relacionada aos meios acadêmicos, mais precisamente ao 1º Encontro Nacional de Estudantes de Letras – ENEL –, realizado em Salvador, Estado da Bahia, em 1980. A partir daí, sob a liderança de Eduardo Martins e Francisco “Chico” Espinhara, funda-se o Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco, que congregou mais de 90 poetas e que, nas palavras de Alberto da Cunha Melo:

“De uma coisa os poetas Independentes de Pernambuco podem estar certos: começaram a incomodar muita gente. A tradiçao de clientelismo na literatura do Estao nao perdoa esse punhado de jovens que dao o seu saúdavel recado pelas ruas do Recife, recitando seus poemas, vendendo seus livros, arengando, amando, vivendo…” (Americanto – 1982)

Caesar Sobreira levitando diante de um grupo de poetas independentes

Um movimento que surpreendeu pela qualidade literária da maioria de seus integrantes e, como afirma Eduardo Martins: “pode-se perceber que os Independentes não definiram em sua ‘carta de princípios’ nenhum novo cânone de motivação estética; na verdade, a ausência de imposição é o que caracterizava a produção do movimento”

Os poetas mais importantes do movimento são tantos que seria quase uma injustiça destacar alguns nomes, embora três deles possam representar a pletora dos Independentes: Cida Pedrosa, Marcelo Mario de Melo e Caesar Sobreira.

Cida Pedrosa: natural de Bodocó. Prêmio Jabuti (2020) Livro do Ano e Melhor Livro de Poesia por sua obra Solo para Vialejo. Prêmio APCA (2022) Melhor Livro de Poesia por Araras Vermelhas. Prêmio Literário Guerra Junqueiro – Lusofonia (2023), concedido pelo município de Freixo de Espada à Cinta, em Portugal.

Marcelo Mario de Melo: poeta, jornalista, militante político, sofreu tortura e prisão durante a ditadura militar de 1964; passou oito anos, 43 dias e 19 horas preso. Já em liberdade publicou Os Quatro Pés da Mesa Posta (poesia); Manifesto Masculinista (humor); Entre Teias e Tocaias/David Capistrano; Perfil Parlamentar de Josué de Castro; Manifesto da Esquerda Vicejante; Os colares e as contas: poemas políticos; AdVersos Resistentes; Rumos resistência e Dicionário poético militante. Sua obra supera os 15 livros

 

CAESAR SOBREIRA

 

A trajetória de Caesar Sobreira revela um percurso singular dentro da cultura pernambucana: da efervescência poética do Movimento de Escritores Independentes à consolidação como um dos intelectuais mais destacados no âmbito acadêmico.

Integrante de uma geração que rompeu com os cânones estabelecidos e levou a poesia às ruas do Recife,  Naquele contexto, a palavra era instrumento de intervenção, e a literatura, um espaço de resistência e invenção.

Com o passar dos anos, sua produção ultrapassou os limites da poesia militante para adentrar com profundidade no campo do ensaio e da reflexão teórica. Sua formação multidisciplinar — que articula filosofia, direito, psicologia e antropologia — lhe permitiu construir uma obra de grande densidade intelectual, voltada especialmente às questões do humanismo, da cultura semita, da religião e dos conflitos contemporâneos. Atulmente é o presidente emérito da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras – ACAFIL-

Do livro De Pernambuco a Salamanca, que contou com a colaboração da Sociedade de Estudos Literários e Humanísticos de Salamanca, a qual concedeu ao autor o Prêmio Ibero-americano de Ensaio “Alfonso Ortega Carmona” em reconhecimento ao conjunto de sua obra (2009).

ENFEITIÇADO POR SALAMANCA

(Fragmento)

 

No ano de 2002 Salamanca foi designada como Capital Cultural da Europa, ou Cidade Europeia da Cultura. Nada mais justo para uma cidade que é, por antonomásia, uma cidade universitária no sentido mais objetivo da palavra. Salamanca é uma espécie de Jerusalém profana, uma cidade santa do conhecimento científico e filosófico. Essa universidade, fundada no ano de 1218 ou 1219 pelo rei Alfonso IX, de León, só perde em antiguidade para suas congêneres da Polônia, Paris, Oxford e Cambridge.

Mas o grande patrono e protetor da Universidade Studii Salmantini foi o rei Alfonso X “o sábio”, que, em 8 de maio de 1254, assinou seu estatuto, conhecido como Carta Magna Constitutiva, por meio do qual o soberano a reconhecia como foro universitário sob a proteção e custeio do tesouro real, destinando-lhe 2500 maravedís de ouro a cada ano letivo.

Ocorre que, na Idade Média, nenhum Studium universitário poderia existir sem o reconhecimento da Igreja Católica. Desse modo, o rei Alfonso X solicitou e recebeu do Papa Alejandro VI, em 1255, uma bula mediante a qual se reconhecia a validade universal dos títulos e graus acadêmicos concedidos pela Universidade de Salamanca. Com isso, os graduados por essa universidade conquistavam o ius ubique docendi, que era o direito de ensinar em qualquer universidade situada nos territórios cristãos, exceto em Bolonha e Paris.

Desde então, a Universidade de Salamanca vem acolhendo com generosidade tanto professores quanto alunos do mundo inteiro, do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, em todos os quadrantes da Terra, especialmente da Ibero-América.

Em todos os lugares, sábios e estudiosos voltam seus olhares e seus corações para Salamanca, o que a transforma em uma espécie de meca buliciosa, eufórica e metafórica. O encantamento, o enfeitiçamento de Salamanca é tão poderoso que desperta o dom da poesia até mesmo naqueles que, até então, não tinham intimidade com as musas. Ainda mais nos poetas natos… nascuntur poetae, como diziam os antigos.

Assim, é inevitável permitir — a todos os que conhecem Salamanca — cometer o pequeno pecado de escrever alguns versos dedicados à cidade. Uma das mais belas poesias dedicadas a Salamanca foi escrita por Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, na Amazônia brasileira.

O poema do bispo-poeta catalão amazônico revela a alma secreta de Salamanca: descreve o arqueológico touro decapitado e cabeçudo, a ponte romana ajoelhada sobre o Tormes, os dedos dançando no ar do mestre Salinas, e outros detalhes que emocionam aqueles que conhecem e amam a pétrea e dourada cidade.

Mas o elogio mais conhecido e repetido é aquele escrito por Cervantes em El Licenciado Vidriera, onde lemos esta declaração simples e definitiva: Salamanca, que enfeitiça a vontade de voltar a ela todos os que da aprazibilidade de sua morada já desfrutaram.

As recordações mais poderosas que se ligam à minha memória, impregnando minha alma, estão relacionadas ao espírito humanístico que Salamanca representa: ali, na cidade banhada pelo rio Tormes, ergue-se um monumento vivo à tolerância entre os povos. Os intelectuais mais importantes da tradição humanística de Salamanca são tantos que seria quase uma injustiça destacar alguns nomes, embora três deles possam representar a pletórica tradição salmantina.

O primeiro deles — por ordem cronológica — é Francisco de Vitoria, frade da Ordem dos Pregadores, que ergueu sua voz em defesa dos indígenas submetidos aos conquistadores espanhóis e foi um dos fundadores do “direito dos povos”, germem dos Direitos Humanos tal como os concebemos na atualidade. Francisco de Vitoria pertence ao Século de Ouro espanhol e passou longos anos estudando na Sorbonne de Paris. Durante o apogeu da expansão ibérica nas Américas, Vitoria conquistou, em 1526, a cátedra de Teologia da Universidade de Salamanca.

Dez anos depois, sob o impacto da cruel conquista do Peru, realizada por Pizarro, Vitoria escreveu sua obra magna De Indis, na qual ergueu sua voz em defesa dos indígenas oprimidos e denunciou a cobiça assassina e escravizadora dos conquistadores. Vitoria afirmava o direito à liberdade e o direito de propriedade dos nativos americanos, com estas palavras: os índios, antes da chegada dos espanhóis, eram verdadeiros senhores, tanto pública quanto privadamente.

Conta-se que o imperador Carlos V ficou furioso com a obra e o magistério de Francisco de Vitoria, chegando a comentar: “Que se calem esses frades”. Mas a voz de Francisco de Vitoria não se calava — muito pelo contrário!

Suas teses, afinal, foram incorporadas à legislação espanhola por meio das famosas Leis Novas, o que impediu a escravidão dos indígenas americanos. Por meio de sua pregação, Francisco de Vitoria inaugurou o direito das gentes e deu origem à Escola de Salamanca, berço de uma nova cosmovisão jurídico-humanista, germem daquilo que viria a ser, muito depois, conhecido como Direitos Humanos.

Depois de Vitoria, a segunda figura a destacar na constelação salmantina é Frei Luís de León, cuja sabedoria se confrontou com a estupidez de seus acusadores, chegando a ameaçar quebrar a cabeça de um deles com sua Bíblia encadernada em madeira.

Frei Luís teve a desventura de viver sob o rei Felipe II, em tempos terríveis do auge do poder inquisitorial. O “pecado” do frade, considerado um dos maiores poetas líricos da Espanha, foi não ter obedecido às orientações do Concílio de Trento ao traduzir o Cantar dos Cantares para o castelhano e também por ter afirmado que a tradução latina da Bíblia feita por São Jerônimo (a famosa Vulgata) continha inúmeros erros.

Então, em 1572, abriu-se um processo no tribunal da Santa Inquisição, durante o qual se descobriu que nosso frade dominicano tinha ascendência judaica. Pobre do nosso poeta lírico! Por esse motivo, foi destituído de sua cátedra na Universidade de Salamanca e enviado à prisão de Valladolid, onde, de fevereiro de 1572 até dezembro de 1576, padeceu nos calabouços do Santo Ofício. Após ser libertado, reconquistou sua antiga cátedra e voltou à atividade docente como se nada tivesse acontecido, isto é, como se tivesse dado aula no dia anterior, pronunciando a célebre frase: “Como dizíamos ontem…”.

O terceiro e último (mas não menos importante) representante dessa plêiade de pensadores universais surgidos do ambiente acadêmico salmantino é Miguel de Unamuno, reitor perpétuo da Universidade de Salamanca, que enfrentou com coragem a barbárie de dois ditadores, Primo de Rivera e Francisco Franco. É famosa a provocação dirigida a um general franquista, diante de quem Unamuno afirmou: “Venceram, mas não convenceram”. Por essa ousadia, Unamuno teve que pagar um alto preço, embora, graças ao seu prestígio e idade, não tenha sido enviado à prisão: foi condenado à prisão domiciliar.

A história de Unamuno é singular: havia sido nomeado reitor em 1900, quando ainda era um jovem professor de apenas 36 anos, já desfrutando, contudo, de imenso prestígio como escritor e pensador. Mas, em 1914, foi destituído do cargo por uma decisão meramente administrativa do governo espanhol. A partir de sua cátedra, Unamuno denunciou e enfrentou a ditadura do general Primo de Rivera, instaurada em 1923. Em decorrência desses conflitos, foi condenado ao desterro em Fuerteventura, de onde partiu em 1930 rumo à França.

Em 1934, quando se celebrou solenemente sua aposentadoria, foi-lhe concedido o título de reitor perpétuo da Universidade de Salamanca. Mas sua luta ainda não havia terminado. Teria ainda que enfrentar a ditadura do Generalíssimo Francisco Franco, proclamando, em 12 de outubro de 1936, na presença do general Millán Astray, a célebre frase já mencionada, advertindo que os franquistas haviam vencido, mas não convencido.

Nosso heróico e quixotesco Unamuno foi, então, confinado em sua residência. No entanto, a força do despotismo franquista não conseguiu apagar o carisma de Dom Miguel. Sua herança ética e sua influência cultural permanecem perceptíveis, ainda hoje, entre alunos e professores da antiga Universidade de Salamanca.

A grandiosidade desses três gigantes do gênio salmantino evidencia uma característica de Salamanca: a sabedoria caminha de mãos dadas com o sentimento de justiça. Foi na Salamanca de Francisco de Vitoria, de Frei Luís de León e de Miguel de Unamuno que gerações de líderes, especialmente ibero-americanos, beberam da refinada fonte do conhecimento e do humanismo.

Caesar Malta Sobreira nasceu em Caruaru-PE em 1957. Professor do Departamento de Letras e Ciências Humanas — área de antropologia — da Universidade Federal Rural de Pernambuco. É doutor em Filosofia e Ciências da Educação pela Universidade de Salamanca; doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo; mestre em Comunidades Europeias e Direitos Humanos pela Universidade Pontifícia de Salamanca; licenciado em Psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco e licenciado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco.

Entre os vários prêmios obtidos, estão o Prêmio Ibero-americano de Ensaio “Alfonso Ortega Carmona”, concedido pela Sociedade de Estudos Literários e Humanísticos de Salamanca no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, em 2 de outubro de 2009.

O Prêmio Nacional de Ensaio Gilberto Freyre, concedido pela Fundação Gilberto Freyre em 2009. O Prêmio Antônio de Brito Alves (categoria Ensaio), concedido pela Academia Pernambucana de Letras em 1997.

O Prêmio “Joel Pontes” de Ensaio, concedido pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco em 1994. Também recebeu a bolsa “Mutis” da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, do Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha, para realizar seu mestrado na Universidade Pontifícia.

Proferiu conferências em Israel, Egito, Portugal, Espanha e Brasil, tendo publicado numerosos ensaios em livros coletivos e revistas especializadas.

Seus livros são:

  • Nordeste Semita: ensaio sobre um certo nordeste que em Gilberto Freyre também é semita (São Paulo, 2009);

  • Jerusalém pertence a quem? análise do conflito israelense-palestino à luz do direito talmúdico, do direito islâmico e do direito internacional público (Recife, 2008);

  • Metafísica da arte real: ensaio sobre filosofia da maçonaria (Recife, 2005);

  • Freud e o judaísmo: ensaios sobre psicanálise e religião (Recife, 1996);

  • A síntese do monetarismo (Recife, 1988);

  • Elementos para uma crítica da natureza do poder (Olinda, 1981);

  • Como & Porque Sou Filósofo (2015): ensaio pessoal com traços de autointerpretação intelectual;

  • Por amor à daat: sete conferências judaicas (2018, com Mayer Gruber): conferências acadêmicas sobre judaísmo, religião e cultura semita;

  • Diálogo das grandezas do Brasil (2019, como organizador): edição crítica de um texto de 1618 com enfoque histórico-antropológico;

  • De Pernambuco a Salamanca (2009): ensaios e reflexões de viagem.

 

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