Os cheiradores de livros
[Cícero Belmar]
A criatura que inventou de colocar a proteção para os livros vendidos em livrarias, com o papel filme envolvendo toda a capa, deve ter se sentido um gênio. A película finíssima e transparente seria a solução definitiva para não sujá-los nem amassá-los, conservando o objeto livro como produto nas prateleiras. Mas aquilo foi um golpe e tanto para nós, os cheiradores de páginas.

O uso do filme plástico realmente foi uma forma barata, sem agredir o marketing do produto exposto, para resolver antigo dilema dos livreiros. Juro: não havia Boticário, Natura ou Avon que oferecesse aroma melhor do que o dos livros novos. Viciadão, eu levava a vida tranquilo, percorrendo as gôndolas das livrarias, retirando os exemplares das prateleiras, até escolher minhas compras.
O cheirinho adocicado e amadeirado do papel misturado com tinta, cola e notas de fibras de celulose extraídas do eucalipto, além de outros materiais que não sei identificar, me dava a sensação de prazer e bem-estar, coisa de viciado mesmo. E eu fazia questão de ir, pelo menos uma vez por semana, a uma livraria. Quem nunca cheirou livros que atire a primeira pedra.
É justamente essa criatura não identificada, esse gênio que inventou a proteção de papel filme para os livros, que terá a nossa eterna antipatia. Eu digo “nossa” porque descobri, há algum tempo, que faço parte de um coletivo: a categoria dos cheiradores de livros. Somos muitos, somos diversos, “somos vários da mesma espécie”, parafraseando o poeta.
Por isso, a minha sugestão é convocar todas, todos e todes para a realização de manifestação pública, qualquer dia desses, na frente de uma grande livraria. Levaremos faixas, cartazes e gritaremos palavras de ordem, em protesto contra o uso do papel filme. Ora, quem já viu, acabar com nosso lazer primordial? Isso merece nosso repúdio, a defesa dos nossos direitos enquanto leitores.
Cheiro de livro novo é como cheiro de carro novo. Tem perfume melhor? No carro, dá uma sensação de coisa limpa, gostosa, de quem acabou de sair da fábrica. O carro às vezes está há um mês nos corredores da concessionária, mas o aroma no interior do veículo prolonga essa sensação de coisa nova.
Livro a gente começa a amar pelo olfato. O cheiro ativa em mim a sensação de que estou comprando uma coisa intelectual, boa e bacana, sei lá. Aliás, o cheiro dos livros sempre foi o responsável pelo aumento das minhas despesas no cartão de crédito.
Compro mais livro do que sou capaz de lê-los. A quantidade de livros comprados é inversamente proporcional à capacidade de leitura. Por isso, sempre houve uma pilha de livros à espera de um leitor na minha casa.
Acabo de ler um texto que deve ter sido escrito por um dos “nossos”: diz que o uso do filme plástico, “do tipo PVC, para proteger o livro”, não é muito recomendável. Graças a Deus! Segundo o texto, o papel filme impede a respiração do papel e pode reter certa umidade, vindo a estimular a presença de fungos. Olha aí, eu sempre soube que aquilo não era coisa boa. Que bom argumento!
Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: [email protected]; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.
















































































