A Juan Gelman
Aí estava a terra bravia
com todos os seus entardeceres,
esperando-te como se espera um filho
desde um dos seus horizontes,
com o peito telúrico aberto a jorros.
E te recebeu quando ias para ela
cantando com ternura, recitando poesias,
com o teu «pão duro» na lembrança
e a memória dos «inocentes» que nunca foram.
Poderá a terra do norte estender as suas raízes
bem dentro das solidões do sul?
Aí nas latitudes da Pátria dilacerada
onde a Nora, Marcelo e Maria,
cedo e com fúria iracunda
plantaram os seus corpos os ditadores da vez.
Irás encontrar-te com eles?
Deixas no caminho a Mara e Macarena,
teus grandes pilares de alívio ao sofrimento,
mas vais encontrar-te com Paco, Rodolfo,
Haroldo e com todos os teus companheiros.
Neste janeiro irresistível,
partiste tranquilo
pelos caminhos ignotos da terra,
mas fica a tua essência de homem
feito revolucionário e combatente.
A América progressista te despede, poeta,
como um fruto a mais da árvore americana
que repartiu ao mundo os melhores que deu,
para fortalecer a grande natureza humana.
Fica na lembrança essa gema de sabedoria,
essa doçura eterna da palavra desfiada
no fundo de uma vida de luta revolucionária.
Fica a tua poesia comprometida,
do povo e para o povo,
que tem a dureza de um quebracho,
o fogo dos flamboyantes
e a doçura dos jasmins.
Tem a força do vento sul,
que penetra como um raio
a dor e a alegria do homem comum.
Só uma coisa me intriga:
Que mensagem deixaste na Caixa das Letras
do Instituto Cervantes para abrir-se em 2050?
Posso imaginá-la, mas não a digo
por respeito à tua privacidade.
Até sempre, companheiro Juan.
Juan Gelman Burichson (Buenos Aires, 3 de maio de 1930 – Cidade do México, 14 de janeiro de 2014). Poeta, tradutor e jornalista argentino, é considerado o poeta mais importante de sua geração. Filho de emigrantes judeus ucranianos, exerceu diversos ofícios antes de se dedicar ao jornalismo. Por sua atividade jornalística e política, viveu no exílio entre 1975 e 1988, residindo alternadamente em Roma, Madrid, Manágua, Paris, Nova York e México. Durante sua ausência da Argentina, chega a ser condenado à morte pela ditadura argentina; sofre muito de perto o drama dos «desaparecidos» quando seu filho e sua nora passam a fazer parte desta dolorosa lista.

Mario Méndez
México, enero de 2014















































































